Este post é o último de uma série sobre o mito de Eros e Psique. Se você chegou aqui pela primeira vez, a história completa começa na Parte 1. Se acompanhou Psique até aqui - este é o momento que você estava esperando.
Há algo que muda em quem completa uma jornada real.
Não é visível de fora. Não é um troféu, não é um título, não é uma conquista que se anuncia. É algo mais sutil - e mais permanente. Uma forma diferente de se mover pelo mundo. Uma relação diferente com o que antes assustava.
Psique está no chão, com o frasco aberto e o sono de morte sobre ela. E é nesse momento - no momento da queda - que Eros aparece.
O retorno de Eros
Eros havia sido mantido em cativeiro pela própria mãe, Afrodite, enquanto Psique cumpria as tarefas. Mas quando vê Psique caída, ele escapa. Voa até ela. Remove o sono de seu rosto com a ponta de uma flecha. E a desperta.
"Sua curiosidade quase te destruiu - de novo", ele diz. E sorri.
Não há recriminação. Não há punição. Há reconhecimento - de que Psique é quem ela sempre foi: alguém que não consegue não querer saber. Que a curiosidade que quase a destruiu é a mesma que a trouxe até aqui.
Eros intercede junto a Zeus. E Zeus - o pai dos deuses - concede o impensável: Psique é elevada ao Olimpo e tornada imortal. O que era humano se torna divino. O que era frágil se torna eterno.
E o amor que começou no escuro - que sobreviveu à traição, às tarefas impossíveis, à descida ao submundo e à queda - se torna consciente, real e indestrutível.
O que a transformação de Psique significa
Psique não se tornou imortal apesar das suas falhas. Ela se tornou imortal através delas.
A curiosidade que acendeu a lanterna - que custou o paraíso. A abertura do frasco - que custou o retorno. Esses não foram erros que precisavam ser corrigidos antes da jornada poder ser completada. Foram parte da jornada.
Jung via nesse padrão algo profundamente verdadeiro sobre a individuação: ela não é um processo de eliminação das falhas, mas de integração de tudo - incluindo o que falha, o que cai, o que precisa de ajuda para se levantar.
Psique não se torna deusa porque foi perfeita. Ela se torna deusa porque foi completamente humana - e não desistiu.
A transformação não é o fim do processo. É o reconhecimento de que o processo nunca termina - e que isso não é uma falha. É a natureza da jornada.
O que o mito nos deixa
Quatro posts depois de entrar no castelo de ouro, Psique chegou a um lugar completamente diferente.
Ela que amava no escuro aprendeu a amar com os olhos abertos. Ela que precisava de um paraíso para ser feliz aprendeu a encontrar o caminho de volta do submundo. Ela que desmoronava diante de tarefas impossíveis aprendeu - não a não desmoronar, mas a se levantar depois de desmoronar.
E o amor que ela conquistou não é mais o amor da inconsciência - da paixão cega, da dependência, da projeção. É o amor da consciência - que conhece o outro como ele é, que sobreviveu ao encontro com a realidade, que escolhe mesmo depois de ver.
Jung chamava isso de amor consciente. E via nele um dos frutos mais raros e mais preciosos da individuação.
(Para entender melhor o que é projeção e como o amor consciente difere da projeção, visite o Baú de Tesouros.)
Enquanto caminha - observe: existe alguma jornada que você já completou - mesmo que com quedas no caminho - e que mudou quem você é? Psique não se tornou deusa porque foi perfeita. Mas porque foi completamente, irremediavelmente humana. E não desistiu.
E talvez seja isso - no final - o que a jornada de tornar-se quem se é tem a nos oferecer. Não a perfeição. Não a chegada. Mas a capacidade de continuar - com as falhas, com as quedas, com o frasco que inevitavelmente vai ser aberto.
E com alguém que reconhece em você não apesar de tudo isso, mas através de tudo isso.
A história foi contada. De volta à trilha - com o mito de Psique como companheira de caminhada.
Bom Caminho.
Eros e Psique III: O encontro com a Sombra ◀|▶ Os 12 Trabalhos de Hércules I: Hércules e a Sombra

Comentários
Postar um comentário
Este espaço é seu também. Compartilhe o que a leitura despertou em você.