Muitas vezes, o processo de autoconhecimento trava no mesmo ponto: quando percebemos algo e, em vez de escutar, tentamos interpretar ou nos defender.
O impulso é automático.
Humano.
Quase inevitável.
Mas, sem perceber, acabamos interrompendo exatamente aquilo que buscamos: o contato com o que está vivo (e atuante) em nós.
Por que isso acontece?
Como mudar essa postura sem perder a profundidade?
Na semana passada, você experimentou o gesto essencial da Jornada Interior: criar espaço para se escutar.
Sete minutos e uma pergunta simples:
“O que está vivo em mim agora?”
E talvez, ao praticar, algo tenha aparecido.
Uma emoção discreta.
Uma tensão antiga.
Uma imagem rápida.
Um vazio difícil de nomear.
Ou só um incômodo sem forma.
É nesse ponto — exatamente nesse ponto — que nasce a dúvida que acompanha quase todo mundo que começa a se escutar:
“O que eu faço com isso?”
Porque logo depois do surgimento aparece o impulso de interpretar:
- “Isso significa o quê?”
- “Por que eu sinto assim?”
- “E se for algo mais sério?”
- “Será que estou inventando?”
- “Será que estou exagerando?”
Não é erro.
É hábito.
Vivemos num mundo que acelera explicações, mas a psique não se revela na pressa.
Ela precisa de presença, não de respostas imediatas.
Escutar é diferente de analisar
Escutar é permitir que algo interno se aproxime.
Analisar cedo demais é afastar o que tentou chegar.
Quando você tenta entender antes de sentir, a experiência perde vitalidade.
Fica reduzida, comprimida, intelectualizada demais.
O que surge no silêncio não vem para ser resolvido.
Nem interpretado.
Vem para ser reconhecido.
Chamamos isso de atitude simbólica:
uma postura que observa antes de concluir, e acolhe antes de explicar.
Sem essa atitude, o processo interno se fecha.
Com ela, o processo começa a respirar.
O erro mais comum: traduzir antes da hora
Querer entender tudo imediatamente cria uma tensão desnecessária.
Uma autocrítica disfarçada de “autoconhecimento”.
Você deixa de sentir e passa a se avaliar.
E isso engessa a experiência.
A pressa em interpretar é, muitas vezes, uma forma sutil de medo:
medo de não controlar, de não entender, de não saber.
Mas o caminho interior não começa no controle.
Começa no contato.
Praticando a Postura Tripla: Observar • Nomear • Deixar Estar
No post anterior você se abriu ao silêncio.
Hoje, vamos aprender a permanecer com o que surge nesse silêncio.
Antes de continuar a leitura, proponho que você pare por um minuto.
Sim: agora.
Feche os olhos por alguns instantes.
Respire com suavidade.
E veja o que aparece em você neste exato momento.
Pronto?
Então vamos.
1. Observar
Note o que se move dentro de você:
uma sensação, emoção, palavra, tensão, imagem ou vazio.
Nada precisa fazer sentido.
Apenas observe.
2. Nomear
Dê um nome breve à experiência:
- “leve irritação”
- “peso no estômago”
- "garganta apertada"
- “cansaço”
- “calma suave”
- “não sei… só algo tensionado”
Um nome simples.
Honesto.
Sem explicações.
3. Deixar Estar
Agora, apenas permita que isso exista.
Sem corrigir.
Sem melhorar.
Sem interpretar.
Sem resolver.
Só deixe estar.
Respire no local.
Fique alguns segundos.
Sinta a verdade suave do que está vivo aí.
Essa pequena permissão reorganiza mais do que qualquer análise apressada.
Por que esta prática funciona?
Porque ela desloca você da postura do “resolver” para a postura do “estar com”.
E é exatamente nesse espaço que:
- o corpo relaxa,
- a emoção perde rigidez,
- a mente suaviza,
- as defesas caem,
- e o sentido começa a surgir, naturalmente.
A psique não responde à pressão.
Ela responde à presença.
Quando você observa, nomeia e deixa estar, cria dentro de si o ambiente onde a experiência pode finalmente revelar o que precisa revelar — no seu tempo.
A vida tem seu ritmo
Forçar entendimento é como tentar abrir uma flor com as mãos.
Você destrói a forma antes de ela se revelar.
Quando você respeita o ritmo da experiência —
quando você permite —
o sentido nasce sozinho.
Às vezes no mesmo dia.
Às vezes dias depois.
Às vezes apenas quando você já pode suportá-lo.
Não há pressa na Jornada Interior.
A profundidade emerge no tempo certo.
Para continuar
Se você fez o exercício dos 7 minutos, e agora experimentou a Postura Tripla, já percorreu dois passos essenciais:
- Criar espaço interno
- Permitir que o que surge exista
No próximo post, vamos avançar para algo que transforma profundamente a relação consigo mesmo:
como diferenciar emoção, pensamento e ação — e por que alinhá-los muda a forma como você vive.
Até lá, permaneça com o que surgir.
A autoescuta como caminho. Boa Jornada.

Comentários
Postar um comentário