Passo 03 - O que Carregar na Mochila?

Em toda jornada carregamos uma mochila.

No Passo 02, apresentei um mapa simplificado da jornada de individuação - cinco trechos que quase todos atravessamos na vida adulta. Hoje damos o primeiro passo, no primeiro trecho: entender quem somos hoje e o que carregamos em nossas mochilas.

Com o tempo, aprendemos a escolher o que colocamos nela i o que é útil, o que é leve, o que nos faz parecer preparados aos olhos dos outros. Levamos o que a trilha nos exige. O que o grupo espera. O que nos protege do frio e da chuva.

Mas existe uma pergunta que poucos fazem antes de partir para um novo trecho da jornada: O que ainda carrego que não me serve mais?

(Para entender melhor o que é individuação, visite o Baú de Tesouros.)


As máscaras do caminhante

Na mochila, o excesso pesa as costas. Nas máscaras que carregamos, o excesso pesa a alma.

Jung chamou de persona a máscara que desenvolvemos para nos adaptar ao mundo. O nome vem do teatro grego - persona era literalmente a máscara usada pelos atores para representar um papel. 

Na jornada da vida, nossa persona também representa. É o papel profissional, a imagem que cultivamos, o jeito que ativamos em situações sociais - a versão de nós mesmos que aprendemos a apresentar para sermos aceitos, amados ou respeitados.

Ela é necessária. Nenhum caminhante atravessa o mundo completamente exposto.

O problema começa quando confundimos a máscara com o rosto. Quando o peso que carregamos deixa de ser escolha e vira identidade. Quando "sou uma pessoa forte" substitui "estou com medo". Quando o papel que desempenhamos por tanto tempo passa a ser a única paisagem que reconhecemos em nós mesmos.

Conhecer-se começa por aqui: perceber onde termina quem você é e onde começa quem você aprendeu a parecer.


O convite desta semana: As Máscaras

Esta prática tem dois movimentos - como uma pausa na trilha. Um momento para sentar, tirar a mochila e olhar com honestidade o que está carregando.

1º movimento - parar e escutar

Reserve alguns minutos em que não será interrompido. Coloque o celular longe.

Sente-se confortavelmente, como quem finalmente encontra uma pedra para descansar.

Feche os olhos. Respire uma vez mais fundo do que o habitual. E pergunte a si mesmo, suavemente: 

    Como eu estou, de verdade, agora?

Não a resposta automática. A verdadeira.

Fique com o que aparecer - sensações, emoções, tensões, imagens, até mesmo o vazio. Tudo é paisagem. Nada precisa ser resolvido agora.

2º movimento - registrar o que você carrega

Com o que surgiu ainda presente, abra seu diário de bordo e responda, sem pressa e sem censura:

  • Como eu me apresento ao mundo? 
  • Existe algo em mim que raramente mostro? O que é, e por quê?
  • Quando me sinto mais eu mesmo - mais inteiro, mais verdadeiro? Em quais situações, com quais pessoas?
  • Qual máscara preciso deixar para trás para caminhar com mais leveza?
Não existe resposta certa. Existe resposta honesta. 

Coloque a caneta no papel e se surpreenda com o que irá aparecer.

(Para entender por que a escrita é um instrumento tão poderoso nesta jornada, visite o Baú de Tesouros.)

A persona não é o inimigo. Ela é parte do equipamento que nos trouxe até aqui. Mas toda boa caminhada exige, em algum momento, revisar o que está na mochila - e decidir, conscientemente, o que vale carregar daqui pra frente.

Esse é o início da caminhada. E já é, por si só, um passo corajoso.

Bom Caminho.




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