Você já viveu um momento em que tudo pareceu se encaixar?
Não a satisfação de concluir uma tarefa. Algo mais quieto - uma sensação de estar completamente no lugar certo, sendo completamente quem você é. As contradições internas param de guerrear por um instante.Pode ter chegado numa criação intensa, numa conversa que tocou algo essencial, no silêncio da natureza, ou numa decisão difícil que trouxe uma clareza que a razão sozinha não explicava.
Jung chamava essas experiências de manifestações do Si-mesmo.
O que é o Si-mesmo
O Si-mesmo - em inglês Self, em alemão Selbst - é um dos conceitos mais centrais e difíceis de descrever na Psicologia Analítica.
Não porque seja abstrato. Mas porque aponta para algo que está além das palavras - além do que o ego consegue capturar completamente.
Jung o definia como o centro e a totalidade da psique: consciente e inconsciente, pessoal e coletivo, luz e sombra, o que já é e o que ainda pode ser.
Se o ego é o caminhante - o centro da consciência que organiza a experiência - o Si-mesmo é a jornada inteira. O território que o caminhante percorre e o princípio que orienta o percurso.
A diferença entre ego e Si-mesmo
É a distinção mais importante para entender o conceito.
O ego é o que você conhece de si mesmo. É o centro da consciência - o "eu" que pensa, decide, lembra e age. Ele é necessário - sem ego não há identidade, não há continuidade, não há capacidade de agir no mundo.
O Si-mesmo é mais vasto. É o centro da psique total - incluindo tudo que o ego ainda não conhece sobre si mesmo. Ele não controla - ele orienta. Não impõe - ele chama.
Jung usava a imagem do sol e da terra: o ego é a terra - o centro da experiência consciente. O Si-mesmo é o sol - a fonte maior que organiza o sistema independente de ser visto ou compreendido.
O ego orbita o Si-mesmo - mesmo quando não sabe disso.
Como o Si-mesmo se manifesta
O Si-mesmo raramente se anuncia de forma direta. Ele fala através de símbolos - nos sonhos, nas sincronicidades, nos momentos de inteireza que surgem sem aviso.
Duas formas de reconhecê-lo:
Nos momentos em que algo se organiza internamente e você se sente, mesmo que brevemente, completo - não perfeito, inteiro. Com as contradições, com a história, com o que foi e o que ainda pode ser.
Nos chamados que continuam voltando - um desejo, uma direção, uma inquietação - independente de quantas vezes você tenta ignorar. O Si-mesmo tem uma orientação própria. Quando o ego resiste a ela, o chamado se intensifica.
A criação da Jornada Interior chegou como um chamado. Por um tempo tentei ignorar - mas a ideia continuava voltando. Até que decidi colocá-la no mundo.
O Si-mesmo e a individuação
A individuação - o processo de tornar-se quem se é - pode ser compreendida como o movimento progressivo do ego em direção ao Si-mesmo.
(Para relembrar o que é individuação, visite o Baú dos Tesouros.)
Não uma fusão - o ego não desaparece. Mas uma relação cada vez mais consciente entre o centro da consciência e o centro da totalidade.
O ego aprende a escutar o que o Si-mesmo aponta - e a confiar nessa orientação, mesmo quando ela desafia o que parece racional ou seguro.
Jung dizia que o Si-mesmo é tanto o ponto de partida quanto o destino da individuação. Nascemos a partir dele - e passamos a vida tentando retornar a ele de forma consciente.
Enquanto caminha - observe se há algo que continua voltando na sua vida independente de quantas vezes você tenta ignorar. Um desejo, uma direção, uma inquietação. Esse pode ser o Si-mesmo falando.
Bom Caminho.
Este post faz parte do Baú de Tesouros - uma coleção de conceitos da Psicologia Analítica explicados em linguagem acessível, para que você possa reconhecê-los ao longo da sua jornada. Explore todos os conceitos da coleção.

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