Ficar ou partir. Ceder ou resistir. Ser quem os outros esperam ou ser quem você é. Continuar ou recomeçar.
E ficar ali - suspenso entre os dois - sem conseguir escolher nenhum, sem conseguir abandonar nenhum. Com a sensação de que qualquer movimento seria uma traição a algo essencial.
E então - num momento que não foi planejado, que não veio da razão - algo diferente emergiu. Não A. Não B. Algo novo. Uma perspectiva, uma imagem, uma decisão que não existia antes e que de repente parecia a única coisa verdadeira.
Isso tem um nome na Psicologia Analítica.
O que é a Função Transcendente
Jung desenvolveu o conceito de função transcendente para descrever algo que observou repetidamente - na clínica, nos sonhos, na criação artística, nos momentos de transformação genuína:
Quando consciente e inconsciente entram em tensão real - quando o ego sustenta os opostos sem colapsar em nenhum deles - a psique tem a capacidade de gerar algo novo. Um símbolo, uma imagem, uma perspectiva que não existia antes e que contém ambos os lados sem ser nenhum deles.
Jung chamava isso de função transcendente não porque seja mística ou sobrenatural - mas porque transcende a oposição. Vai além dela. Cria um terceiro ponto que os contém.
É a função que torna a individuação possível.
(Para relembrar o que é individuação, visite o Baú de Tesouros.)
Como funciona na prática
A função transcendente não é uma técnica. Não é algo que se aplica deliberadamente. É algo que emerge - quando as condições estão certas.
E as condições são específicas:
Primeiro - a tensão precisa ser sustentada
O ego precisa aguentar os opostos sem resolver prematuramente. Sem colapsar em um dos lados por ansiedade, por pressão externa, por incapacidade de tolerar a incerteza.
É exatamente aqui que a maioria das pessoas falha - não por falta de inteligência, mas por falta de tolerância à tensão. A mente que não suporta ficar suspensa entre dois opostos escolhe um - qualquer um - só para acabar com o desconforto.
Mas a escolha prematura fecha o processo antes que algo novo possa emergir.
Segundo - o inconsciente precisa ser escutado
Enquanto o ego sustenta a tensão, o inconsciente trabalha. Nos sonhos, nas imagens espontâneas, nas sincronicidades, nas emoções que surgem sem explicação aparente.
(Para entender melhor o que é o inconsciente, visite o Baú de Tesouros.)
A função transcendente não emerge apesar do inconsciente - emerge através dele. É o diálogo entre ego e inconsciente que cria o terceiro ponto.
Terceiro - o símbolo precisa ser recebido
Quando a função transcendente age, ela frequentemente se manifesta como símbolo - uma imagem, um sonho, uma metáfora, uma frase que aparece de repente e que carrega mais do que as palavras conseguem explicar.
(Para entender melhor o que são símbolos, visite o Baú de Tesouros.)
O ego que descarta esse símbolo - que exige uma solução racional em vez de receber o que emergiu - interrompe o processo.
Receber o símbolo não é passividade. É uma forma específica de atenção - aberta, sem julgamento, disposta a ser surpreendida.
Exemplos da vida cotidiana
A função transcendente não é reservada para momentos de crise ou para pessoas em análise junguiana. Ela age na vida de qualquer pessoa que se permite sustentar a tensão dos opostos.
O profissional que está dividido entre a carreira que construiu e o chamado que nunca seguiu - e que, num momento de quietude, encontra uma terceira via que integra os dois de uma forma que a razão não havia imaginado.
O relacionamento que chegou a um impasse - nem continuar como está nem terminar parece certo - e que, através de uma conversa honesta ou de um sonho revelador, encontra uma forma nova de existir que nenhum dos dois havia previsto.
A pessoa que carrega uma ferida antiga - nem negá-la nem ser definida por ela parece possível - e que, num momento de integração genuína, descobre que a ferida pode ser transformada em algo que serve não só a ela, mas aos outros.
Em todos esses casos, o que emergiu não foi uma escolha entre os opostos. Foi algo que os transcendeu.
A relação com a imaginação ativa
Jung via a imaginação ativa como um dos métodos mais diretos de convocar a função transcendente.
(Para entender melhor o que é imaginação ativa, visite o Baú de Tesouros.)
Quando o ego dialoga deliberadamente com as imagens do inconsciente - através da escrita, do desenho, do movimento, da visualização - cria as condições para que a função transcendente se manifeste.
Não é garantido. Não é imediato. Mas é um convite consciente para que o processo aconteça.
Enquanto caminha - observe se há alguma tensão na sua vida em que você está pressionado a escolher um lado rapidamente. Experimente sustentar os dois por mais tempo do que o confortável. O que emerge pode surpreender.
Bom Caminho.
Este post faz parte do Baú de Tesouros - uma coleção de conceitos da Psicologia Analítica explicados em linguagem acessível, para que você possa reconhecê-los ao longo da sua jornada. Explore todos os conceitos da coleção.

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