Passo 13 - A Criança que Acompanha a Caminhada


No post anterior, falamos sobre complexos - núcleos autônomos da psique que, quando ativados, assumem o comando. Hoje vamos aprofundar em um dos mais universais: a criança interior.

Toda criança aprende cedo o que é aceito e o que não é. O que pode ser mostrado e o que precisa ser escondido. O que gera amor e o que gera desaprovação.
E ela é extraordinariamente inteligente nesse processo.

A criança que chorava e aprendia que o choro incomodava - parou de chorar. A que era espontânea e descobria que a espontaneidade atrapalhava - aprendeu a se conter. A que tinha necessidades e percebia que as necessidades eram demais - aprendeu a não precisar.

Essa adaptação foi necessária. Foi sobrevivência.

Mas a criança adaptada não desapareceu. Ela vive dentro do adulto. E em determinados momentos, quando algo no presente toca o núcleo do complexo, ela salta para fora e assume o controle.

O adulto não tem tempo de reagir. Porque não é ele quem reage.


Como a criança fala no adulto

Ela não anuncia a sua presença. Ela aparece nos momentos em que o adulto menos espera.

  • Na dificuldade de pedir ajuda - porque aprendeu que precisar era fraqueza. 
  • Na necessidade de aprovação - porque aprendeu que o amor era condicional. 
  • Na reação desproporcional à crítica - porque aprendeu que errar era perigoso. 
  • Na dificuldade de estabelecer limites - porque aprendeu que dizer não afastava as pessoas. 
  • Na autocrítica implacável - porque aprendeu que só a perfeição era suficiente. 
  • Na sensação persistente de não ser suficiente - mesmo quando todas as evidências dizem o contrário.

O "adulto" reage. A criança é a origem do comando.

E a origem faz sentido - sempre. A criança não errou ao se adaptar. Ela sobreviveu com os recursos que tinha. O problema não é o que ela fez então. É o que o complexo continua fazendo agora - num contexto completamente diferente, com um adulto que tem recursos que a criança não tinha.


O convite desta semana

Primeiro momento - a carta

Abra o diário de bordo. Feche os olhos por alguns minutos. 

Traga à memória a imagem da criança que você foi - uma idade, uma cena, um momento. Não precisa ser dramático. Pode ser simples. 

Escreva uma carta para ela. 

Deixe o adulto que você é hoje falar: "Eu sei que você ainda está aqui. Eu te vejo. O que você viveu fez sentido - e eu entendo por que você reagia assim. Mas hoje eu quero te dizer que..." 

(Essa prática é uma forma de imaginação ativa - para entender melhor o conceito, visite o Baú de Tesouros.)

Não force um final bonito. Escreva o que é verdadeiro. 

Segundo momento - o diálogo 

Agora deixe a criança responder. 

Escreva como se ela pudesse falar - com a voz, as palavras, as necessidades que ela tinha: "O que eu mais precisava era... O que eu guardei foi... O que eu ainda preciso de você é..." 

Deixe o diálogo se desenvolver sem forçar conclusão. Não precisa ser resolvido numa semana. A criança esperou até aqui - pode esperar mais um pouco. 

Se em algum momento o processo ficar intenso demais - pare. Respire. Algumas crianças precisam de mais do que um diário para ser elaborados. E buscar o acompanhamento de um psicólogo ou terapeuta não é fraqueza - é parte do caminho.

A criança interior não precisa ser curada. Precisa ser reconhecida.

Quando o adulto consegue identificar - "ah, foi a criança que reagiu" - algo muda. Não imediatamente, não completamente. Mas a consciência cria uma pequena distância entre o estímulo e a reação. E nessa distância mora a escolha.

Bom Caminho.



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