Não é a raiva de quem foi magoado por alguém próximo. Não é o luto de quem perdeu algo que amava. É algo mais específico - e mais persistente.
É a indignação de quem seguiu as regras. Que fez o que era certo. Que trabalhou com honestidade, que respeitou os limites, que nunca trapaceou - e que se viu ultrapassado, prejudicado ou invisibilizado por quem não teve os mesmos escrúpulos.
Eu fiz tudo certo. E ainda assim.
Essa frase - ou alguma variação dela - aparece com uma intensidade que vai além da situação específica. Como se tocasse em algo muito mais profundo do que o episódio que a gerou.
E toca mesmo.
Quem é o Trapaceiro
O Trapaceiro - em inglês Trickster - é um dos arquétipos mais antigos e mais universais da psique humana.
Ele aparece em praticamente todas as mitologias do mundo: Loki na mitologia nórdica, Hermes na grega, Exu na tradição iorubá, Coyote nas culturas nativas americanas. Sempre irreverente, sempre imprevisível, sempre subvertendo a ordem estabelecida de formas que perturbam - e que frequentemente abrem o que estava fechado.
O Trapaceiro não respeita as regras - não por maldade, mas porque as regras, para ele, são construções humanas que podem ser questionadas, contornadas e refeitas. Ele vê o que os outros não veem. Encontra passagens onde os outros encontram paredes. E usa a criatividade, o humor e a irreverência para ir onde a seriedade não consegue chegar.
Jung observou que o Trapaceiro é um arquétipo necessário - e perigoso de reprimir. Porque o que ele carrega não é só transgressão. É também criatividade, flexibilidade, a capacidade de questionar o que todos aceitam sem pensar, de encontrar o absurdo no que é tratado como sagrado.
Quando o Trapaceiro é completamente silenciado - em nome da correção, da seriedade, do certo - algo importante vai junto com ele.
A sombra da correção
Aqui está o ponto que exige honestidade.
A indignação diante do Trapaceiro - a raiva de quem vê o outro trapacear e prosperar - raramente é só sobre o outro.
Jung chamaria isso de projeção: o que nos irrita com intensidade desproporcional no outro frequentemente aponta para algo que existe em nós - mas que não permitimos reconhecer.
Quem reprimiu completamente o Trapaceiro interno - quem aprendeu que subverter as regras é errado, que ser diferente é perigoso, que a irreverência é imaturidade - carrega essa figura na sombra. E o que vai para a sombra não desaparece. Aparece projetado nas pessoas ao redor, com uma intensidade que a situação concreta não justifica completamente.
A pergunta que vale fazer - com honestidade e sem julgamento - não é apenas "por que eles trapaceiam?"
É também: "O que em mim nunca teve permissão de ser irreverente, criativo, transgressor - mesmo quando as regras não faziam sentido?"
Não é uma acusação. É um convite à auto-observação.
Porque há uma diferença importante entre seguir as regras por escolha consciente - porque fazem sentido, porque refletem valores genuínos - e seguir as regras por medo. Por necessidade de aprovação. Por incapacidade de imaginar que existe outro caminho.
O primeiro é integridade. O segundo é rigidez disfarçada de virtude.
(Para relembrar o que é projeção, visite o Baú dos Tesouros.)
O que o Trapaceiro oferece
O Trapaceiro não é um convite à desonestidade. É um convite à flexibilidade - à capacidade de questionar o que foi aceito sem exame, de encontrar caminhos onde os mapas oficiais dizem que não existe nenhum.
Ele oferece:
Humor - a capacidade de não se levar tão a sério. De ver o absurdo nas situações que nos aprisionam. De rir - inclusive de si mesmo - como forma de liberar o que a seriedade mantém rígido.
Criatividade - o pensamento lateral que encontra soluções onde o pensamento convencional encontra apenas obstáculos. A capacidade de fazer diferente sem precisar de permissão.
Questionamento - a disposição de perguntar "por quê?" diante do que é tratado como óbvio. De não aceitar a autoridade só porque é autoridade.
Leveza - a capacidade de não transformar cada transgressão numa catástrofe moral. De perceber que nem toda regra quebrada é um crime - e que nem toda flexibilidade é fraqueza.
O Trapaceiro e a individuação
Jung observava que o Trapaceiro frequentemente aparece nos momentos de transição - quando a psique precisa quebrar uma forma antiga para que uma nova possa emergir.
É ele que subverte o que estava estabelecido. Que embaralha as certezas. Que cria o caos necessário para que algo novo possa se organizar.
Quem reprimiu completamente o Trapaceiro tende a ter dificuldade com as transições - com os momentos em que a vida pede flexibilidade, improvisação, a disposição de fazer diferente do que sempre foi feito.
Integrar o Trapaceiro não é se tornar desonesto. É recuperar a capacidade de ser criativo, irreverente e flexível - de questionar as regras que não fazem mais sentido, de encontrar humor onde há rigidez, de abrir passagens onde os mapas dizem que não existe nenhuma.
(Para relembrar o que é individuação, visite o Baú dos Tesouros.)
O Trapaceiro em você
Se a indignação diante de quem trapaceia ressoa com mais intensidade do que a situação justifica - vale fazer a pergunta com honestidade:
O que em você nunca teve permissão de ser irreverente? De questionar? De fazer diferente - mesmo quando as regras não faziam sentido?
Existe alguma área da sua vida onde a correção se tornou uma prisão - onde você segue as regras não por escolha, mas porque não consegue imaginar outra forma de ser?
Enquanto caminha - observe quando a indignação diante do outro é também um sinal de algo que existe em você e ainda não encontrou voz. O Trapaceiro não precisa governar. Mas precisa ter um lugar - porque o que não tem lugar age por baixo, sem consciência.
Bom Caminho.
A Grande Mãe: O Amor que Nutre e o Amor que Prende ◀|
Este post faz parte das Histórias do Caminho - narrativas de arquétipos e mitos que iluminam a jornada de individuação. Explore todas as histórias [aqui].

Comentários
Postar um comentário
Este espaço é seu também. Compartilhe o que a leitura despertou em você.