Existe uma diferença fundamental entre duas formas de viver.
A primeira é a vida que acontece - onde os eventos chegam, as pessoas aparecem e somem, as fases se sucedem, e o caminhante vai sendo levado pelo fluxo sem muita consciência de que está escolhendo. Não por má vontade. Não por preguiça. Mas porque ninguém ensinou que havia outra possibilidade.
A segunda é a vida que se escolhe - não no sentido de controlar tudo, não no sentido de eliminar o acaso ou o sofrimento, mas no sentido de assumir a autoria. De reconhecer que, mesmo diante do que não pode ser mudado, há sempre uma escolha sobre como responder.
A jornada de autoconhecimento que chegou até aqui - a mochila revisada, a lanterna fortalecida, a floresta atravessada, o cume alcançado - aponta para essa segunda forma de viver.
Mas apontar não é suficiente. É preciso escolher.
O que é responsabilidade pelo próprio crescimento
A palavra responsabilidade carrega um peso cultural que vale desfazer antes de continuar.
Responsabilidade não é culpa. Não é a obrigação de ter feito tudo certo. Não é a exigência de ser perfeito ou de não ter errado.
É algo mais preciso - e mais libertador.
É response-ability - a capacidade de responder. De não ser apenas reagido pela vida, mas de responder a ela conscientemente. De não atribuir ao destino, aos outros ou às circunstâncias o que é, na verdade, uma escolha - mesmo que uma escolha difícil.
Jung era muito claro sobre isso: a individuação exige que o ego assuma a autoria da própria psique. Não que controle tudo - o inconsciente é mais vasto do que qualquer ego pode dominar. Mas que responda conscientemente ao que emerge. Que não finja que não viu o que viu. Que não volte a dormir depois de ter acordado.
Os três movimentos da responsabilidade
Primeiro - assumir a autoria
Assumir a autoria não significa que você é responsável por tudo que aconteceu com você. Não é isso.
Significa que você é responsável pelo que faz com o que aconteceu. Com a história que carrega. Com as feridas que tem. Com os padrões que reconheceu. Com o que aprendeu ao longo da jornada.
Frankl - que sobreviveu ao que poucos sobreviveram - descrevia isso com uma clareza que poucos alcançam: entre o estímulo e a resposta há um espaço. E nesse espaço está a liberdade humana.
(Para entender melhor a conexão entre Jung e Frankl, visite o Post 17.)
Assumir a autoria é aprender a habitar esse espaço - conscientemente, repetidamente, mesmo quando é difícil.
Segundo - responder ao que a jornada revelou
Há uma forma de autoconhecimento que é apenas contemplativa - que observa, analisa, compreende - mas que não muda nada na vida concreta.
Jung não tinha paciência para esse tipo de autoconhecimento. Ele acreditava que a consciência que não gera mudança não é consciência - é intelectualização.
Responder ao que a jornada revelou significa que o que foi visto na floresta, ao redor da fogueira, no cume - tem consequências. Muda escolhas. Muda relações. Muda a forma de usar o tempo, a energia, a voz.
Não tudo de uma vez. Não perfeitamente. Mas algo.
A sombra reconhecida precisa mudar algo na forma de agir. O complexo identificado precisa gerar mais consciência na próxima ativação. A vocação vislumbrada precisa encontrar alguma expressão concreta - mesmo que pequena, mesmo que imperfeita.
Terceiro - cuidar da própria jornada
Esta é a dimensão mais suave - e muitas vezes a mais esquecida.
Cuidar da própria jornada significa tratar o próprio processo de crescimento com a mesma atenção e o mesmo respeito que você daria a alguém que ama.
Não forçar além do que é possível. Não abandonar quando fica difícil. Não comparar o próprio ritmo com o de ninguém. Não exigir resultados que a psique ainda não está pronta para entregar.
Significa manter as práticas que funcionam - o diário de bordo, o silêncio, a escuta dos sonhos, a atenção às sincronicidades.
(Para relembrar o que é sincronicidade, visite o Baú de Tesouros.)
Significa buscar acompanhamento quando o processo pede - um terapeuta, um grupo, uma pessoa de confiança - sem ver nisso fraqueza, mas inteligência.
Significa honrar o que foi atravessado - não minimizar o que custou, não relativizar o que foi conquistado.
A responsabilidade como liberdade
Aqui está o paradoxo que só quem viveu entende:
Assumir a responsabilidade pelo próprio crescimento não é um fardo. É a maior liberdade que existe.
Porque enquanto a causa do que somos está sempre nos outros, nas circunstâncias, no passado - somos prisioneiros do que não podemos mudar.
Quando assumimos a autoria - não do que aconteceu, mas do que fazemos com o que aconteceu - nos tornamos, pela primeira vez, verdadeiramente livres.
Não livres de sofrimento. Livres para escolher como responder a ele.
Jung chamava isso de individuação responsável - o processo de tornar-se quem se é sem transferir para ninguém a responsabilidade por esse tornar-se.
(Para relembrar o que é o Si-mesmo, visite o Baú de Tesouros.)
O convite desta semana
Esta prática tem dois movimentos - visualização primeiro, escrita depois.
Primeiro movimento - visualização
Feche os olhos. Respire algumas vezes até sentir o corpo presente.
Imagine-se como o autor da própria história - não o personagem que é levado pelos eventos, mas quem escreve as próximas páginas.
Observe:
- Que tipo de história você quer que seja escrita daqui para frente?
- Quais escolhas - pequenas ou grandes - precisam ser feitas para que essa história se torne real?
- O que você tem evitado escolher - e o que essa evitação está custando?
Segundo movimento - escrita
Abra o diário de bordo e responda:
- Existe alguma área da sua vida onde você ainda está esperando que algo externo mude para que você possa mudar? O que seria assumir a autoria dessa área?
- Qual é a coisa mais importante que a jornada revelou - e que ainda não gerou mudança concreta na sua vida?
- O que seria cuidar da sua própria jornada com mais atenção e mais respeito - o que precisaria mudar na forma como você trata o próprio processo?
- Se a sua vida fosse um livro - e você fosse o autor - qual seria o próximo capítulo que você escolheria escrever?
Assumir a autoria da própria vida não é um ato heroico.
É um ato cotidiano - feito de escolhas pequenas, repetidas, nem sempre perfeitas, mas sempre conscientes.
E é exatamente isso que a jornada de autoconhecimento prepara - não um ser humano perfeito, mas um ser humano que escolhe. Que responde. Que cuida.
Que assume, com honestidade e sem drama, que esta vida - com tudo que tem de difícil e de belo - é sua.
Na próxima publicação - o caminhante volta ao mundo com o fogo aceso. E descobre que a melhor forma de honrar o que foi integrado é compartilhá-lo.
E nos dois últimos passos desta jornada, algo diferente de tudo que veio antes vai ser pedido - não observação, não escrita reflexiva, mas síntese. O diário de bordo vai ser o instrumento central. Vale ir mantendo-o perto.
Bom Caminho.

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